Mês: Janeiro 2016

A azeitona apanhou um susto

Por causa do excesso de calor a azeitona amadureceu cedo e a colheita começou num ápice. Fomos espreitar o funcionamento de um lagar e descobrimos que o azeite ainda pode servir de moeda de troca. Em meados de novembro a apanha da azeitona ia quase no fim. No lagar transformava-se o fruto da oliveira com a certeza de que tudo estava a acontecer cedo demais. A primavera seca, a falta de água e muito sol assustaram a azeitona, mudaram-lhe o calendário e incomodaram-lhe a saúde trazendo algumas pragas: mosca e gafa. Os trabalhadores que apanharam a azeitona não precisaram de tanta roupa, como noutras campanhas bem mais frias e a entrar no inverno. Quem olha os campos à volta de Manteigas confirma que o tempo pode ter aquecido, contrariando a convenção, mas o olival tradicional, na maior parte dos casos, ainda se mantém intocável: as oliveiras são altas e não pequenas, organizadas, como nos olivais modernos, mesmo os que seguem o modelo de cultivo tradicional. Aqueles que fazem a colheita encostam escadas ao tronco para varejarem a azeitona que tomba sobre sarapilheira ou mantas …

Sair à rua para entrar na música

As duas bandas filarmónicas de Manteigas integraram onze novos alunos nas suas formações. Descobrimos quatro histórias de promessa, liberdade, nervos e… caganitas. O bocejo chegou depois das dez da noite. O ensaio decorria há mais de uma hora e os onze anos do corpo delgado de Sofia Serra começaram a ressentir-se do cansaço. A flauta transversal continuou em frente dos lábios. Apesar de não chegar com os pés ao chão, conservou as costas direitas. Para se manter alerta, de vez em quando, esfregou os olhos ou lançou o cabelo para trás dos ombros. Cada pequeno movimento, lento, disfarçado, feito nos momentos de pausa, valeu a pena para prosseguir com o treino até pouco depois das onze da noite daquela terça feira. Afinal, no sábado seguinte, dia 26 de dezembro de 2015, logo a seguir ao Natal, seria a sua estreia como um dos seis novos membros da Música Nova e iria apresentar as boas festas à população da vila. O primeiro dos dois dias de arruada começou às nove da manhã e “acabou pelas 16h30”, lembra. “Já me …

O verão não deu a última gargalhada

Os pássaros debicam a fruta nas árvores, mas deixam bastantes figos, pêssegos e maçãs para a D. Ermelinda secar ao sol. Assim se matam as saudades do calor durante o inverno. As três figueiras que Ermelinda Marcelino tem no seu terreno são partilhadas. Os pássaros comem uma pequena parte da fruta e os figos que restam ficam para ela. “Dá para todos, divido”, explica, satisfeita com esta distribuição tão ecológica, mas incomodada com “os figos que se desperdiçaram por não ter sido capaz de os apanhar”. Afinal, é para não desaproveitar a produção que, aos 74 anos, ainda seca, ao sol do verão, grande parte da fruta por si colhida. “Antigamente tudo era pobre, todos aproveitavam tudo para o inverno, tudo se guardava”, recorda sentada ao pé da lareira, na sua casa na aldeia de Vale de Amoreira, uma das quatro freguesias do concelho de Manteigas. Ermelinda Marcelino começou a secar fruta em pequena. A mais velha de nove irmãos, cuidava da casa enquanto os pais trabalhavam. “Quando podia, eu é que ia arrebanhando os figos …