Campo, Manteigas
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O verão não deu a última gargalhada

Os pássaros debicam a fruta nas árvores, mas deixam bastantes figos, pêssegos e maçãs para a D. Ermelinda secar ao sol. Assim se matam as saudades do calor durante o inverno.

As três figueiras que Ermelinda Marcelino tem no seu terreno são partilhadas. Os pássaros comem uma pequena parte da fruta e os figos que restam ficam para ela. “Dá para todos, divido”, explica, satisfeita com esta distribuição tão ecológica, mas incomodada com “os figos que se desperdiçaram por não ter sido capaz de os apanhar”. Afinal, é para não desaproveitar a produção que, aos 74 anos, ainda seca, ao sol do verão, grande parte da fruta por si colhida.

“Antigamente tudo era pobre, todos aproveitavam tudo para o inverno, tudo se guardava”, recorda sentada ao pé da lareira, na sua casa na aldeia de Vale de Amoreira, uma das quatro freguesias do concelho de Manteigas. Ermelinda Marcelino começou a secar fruta em pequena. A mais velha de nove irmãos, cuidava da casa enquanto os pais trabalhavam. “Quando podia, eu é que ia arrebanhando os figos das figueiras que lá tínhamos”.

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Figos a secar ao sol.

A técnica que utiliza “é de antes dos velhos”, constata, mas apurou-a com o tempo. Não colhe os figos diretamente da árvore. Espera. “Ponho um toldo por baixo e eles tombam já secos”, explica. Os figos são desinfetados em água a ferver, assim, só correm o risco “de apanhar bicho ao fim de três ou quatro anos”. Ainda molhados são colocados em cima de toalhas limpas, no terraço, ao sol. Têm de secar bem com “sol direto, senão apanham bolor”.

Pêssegos e maçãs passam por um método semelhante. “Debulho os pêssegos, parto-os e deixo-os a secar ao sol em tabuleiros”, esclarece. No final do processo, a fruta perde o aroma, mas na polpa o sabor fica concentrado, muito intenso. Ao trincar um destes pedaços de pêssego, em pleno frio do inverno, regressa-se ao verão. Na boca sente-se a acidez, o paladar floral da fruta estival.

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Figos, pêssegos e maçãs desidratados.

Do arado para França

A partilha não se restringe aos pássaros. A filha de Ermelinda Marcelino, que está em França (país onde Ermelinda também esteve emigrada) irá receber a sua porção de figos e pêssegos este inverno. “A minha filha arranjou um rapaz lá na França e quis ir-se embora”, recorda. A mãe e o pai seguiram-lhe os passos.

“Eu, uma mulher analfabeta, trabalhava num supermercado Casino. Tinha tudo [organizado] no armazém do cimo ao fundo, todos os preços me passaram pelas mãos”, conta deixando bem claro que os patrões gauleses “sabiam desde o início” que era iletrada. Gostaria de ter ido mais longe, “porque o chefe queria ensinar-me a trabalhar com a máquina registradora do dinheiro, para quando não estivesse a rapariga da caixa”.

Na infância e adolescência, nem tudo foi fácil. “Tinha oito e nove anos e já andava com a rabiça do arado na mão. Eu lavrava como os homens.” Conheceu o marido – com quem se casou aos 21 anos – quando andava com “uma data de raparigas e rapazes a trabalhar no Cabecinho [uma quinta de Vale de Amoreira]. Nós carregávamos os molhes de estevas e giestas às costas e à cabeça pelo mato abaixo”.

Quando ficou viúva, podia ter regressado para França. “Não queria abandonar o meu marido de um dia para o outro. É preciso tratar da campa, temos as missas…” Todavia, continua com bichos carpinteiros no corpo: “Não consigo ficar em casa, corto lenha, trato da horta… Não me faço velha”.

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Ermelinda Marcelino.

Conservas de legumes

Entre as suas tarefas está a confeção de conservas. Tomate é um dos produtos que mais abunda no seu terreno. Um processo que aprendeu já em adulta: “Primeiro os frascos são lavados e desinfetados em água a ferver. Lavo os tomates, tiro-lhes a pele e, sem sal, sem nada, ponho-os nos frascos. Tapo os frascos e fervo-os 20 minutos na água em banho-maria”, relata.

Os frascos ficam na água por 24 horas. “No dia seguinte é que se tiram e põem-se num pano com a boca para baixo”. Este passo é crucial, pois “se algum tiver ar, começa a verter e, se não se tiver este cuidado, pode ficar guardado no meio dos outros, esquecido, azeda e estraga-se”, avisa.

Numa época em que os sistemas de refrigeração e de logística imperam, Ermelinda Marcelino soma os conhecimentos que ganhou em criança (processo de secagem dos frutos), aos aprendidos enquanto emigrante em França (conservas) para aproveitar o excesso de produção da sua horta e pomar. Guarda para o inverno alimentos de verão e estende no tempo a memória de sabores soalheiros.

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