Manteigas
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Olhe que são três a cinco euros!

No dia do mercado, uma vez por mês, a vila de Manteigas ainda sai a passeio. Tudo e nada se compra, desde meias a sofás, saias e sapatos.

A mãe interrompe-o pouco depois de começar. Alto e moreno, José Pedro é vendedor de roupa. “Pedro é o último nome”, confirma sem muitos sorrisos. “Já venho à feira de Manteigas há uns 20 anos, primeiro ficávamos ali perto da igreja”, acrescenta. A mãe, Rosalina Graça, pequena, enérgica, não perde a oportunidade e corta-lhe o discurso: “Hoje em dia não se vende nada”.

O filho tenta continuar a conversa, explicando que, nos primeiros anos em que a feira se mudou para o parque de desportos radicais, fora das ruas principais da vila, “ainda foi bom, vendia-se bem. Mas depois, “com o cair das fábricas de têxteis, tudo mudou. Faliram e o poder de compra diminuiu”. A mãe volta à carga: “Se calhar ainda vamos para pior. A China deu cabo de tudo”. O filho desiste, entrega-se às vendas e aos clientes.

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Os compradores não são muitos e ouve-se algumas feirantes a tentar atraí-los pela compaixão: “Ajudem os pobrezinhos que precisamos de dinheiro”.

Os fregueses acabam por se juntar em torno das bancas de roupa interior a ver pijamas e collants. As senhoras encontram-se, cumprimentam-se e conversam, enquanto revolvem as meias – três pares a cinco euros, artigo nacional. “Oh, sim, já estou melhor do braço”. Há quem passe pelo mercado a meio da corrida matinal. “Venho ver de umas peúgas para o meu filho, antes de ir para casa”.

É numa destas bancas que se atarefa Ricardo Maturana, comerciante com a sua própria marca. Nascido no Chile, naturalizado português e a viver na Guarda, constata que “a classe [dos feirantes] é muito independente. Cada um vive por si. Se fossemos unidos era melhor”. Por ele reclamava “melhores condições no terreiro da feira, pois o chão não é plano. Quando vendíamos perto da vila estávamos ao lado das casas, das pessoas”. Desde a mudança, acrescenta, “o negócio desceu 50%”.

Delfina Rabaça, uma das compradoras que caminha entre as tendas assume “que lhe dava mais jeito a feira dentro da vila por ficar mais perto de casa”. No entanto, concorda com Conceição Matos, enquanto recordam que “apesar de ser mais alegre, com mais pessoas, o mercado criava muito trânsito com as carrinhas grandes a tentarem passar por entre as bancas”.

Na feira, no segundo sábado de cada mês, vê-se roupa de corte moderno pendurada em cabides, sapatos por cima das caixas, malas de senhora e chapéus. O mobiliário (cadeiras, sofás, mesas…) está exposto com simplicidade, sem arranjos. Os tecidos são medidos e cortados a pedido, os panos de cozinha – quatro a cinco euros – dizem “Adoro-te Mãe”, “Adoro-te Pai”, sem discriminar géneros.

Horácio Carvalhinho, comerciante de cestas de verga de Gonçalo, é o único que resiste e apresenta produtos mais tradicionais. “Venho cá desde os meus 14 anos. Fui assim criado, foi o que me ensinaram”, lembra com palavras pausadas este homem alto, de corpo seco. Faltam apenas 12 dias do Natal. “Só me estreei pelas 10h30 e a feira acaba ao meio dia”, diz. É simples a sua explicação para fazer o primeiro negócio tão tarde: “Isto já não se vende desde que apareceram as vergas da China, por serem mais baratas”. A voz de Rosalina Graça parece chegar até ali, já não como uma interrupção, mas sim um eco.

 

 

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